Quase dor

“Esqueço que amar é quase uma dor”

Desculpe Djavan, mas amar mesmo não é (quase) dor. Amar é lindo, fofo. Seja amor de amigo, irmão, homem x mulher é tudo maravilhoso. A verdade mesmo é que a dor existe quando o amor não pode existir, quando a saudade aperta tanto quanto uma dor física, quando a distância atrapalha por demais. 

Não acredito em destino – no sentido literal-, acredito em Deus e no que Ele faz. Creio sim que existe tempo pra todas as coisas, inclusive pra amar, pra deixar de fazê-lo, pra sentir saudade ou sofrer de distância, mas acredito que de um jeito ou de outro a gente aprende a viver. Seja o caminho difícil ou não, a gente vai sobrevivendo e aprende a suportar as dores que inevitavelmente a vida nos impõe.

Apesar de tudo ter seu tempo, nem tudo é fruto de uma escolha própria. E afinal, nessa nossa vida doida e imprevisível, o que é escolha própria se sempre somos influenciados por pessoas, sociedade, pensamentos, tempo? Deixa a vida jorrar mesmo e navegue, mesmo que no seu oceano de lágrimas particular.

 

(Isadora Bersot)

Detestáveis

Detesto.
Detesto quem quer falar da vida alheia sem ter o mínimo conhecimento a respeito do alvo das críticas.
Detesto quem quer dar pitaco numa situação quando não consegue entender o que se passa e o que se pensa.
Detesto quem acha demais e sabe de menos.
Detesto essas mentes cheias de suposições sem disposição a enxergar a verdade.
Detesto fundamentos infundamentados.
Detesto ditos pensadores que teimam em não pensar.
Detesto quem julga necessária as opiniões alheias por medo do que vão falar.
Detesto quem não consegue ser original.
Detesto essas frases prontas que as pessoas aceitam sem refletir.
Detesto essa sociedade que tanto aponta o dedo sem compreender um dos órgãos vitais – o coração.
E por fim, detesto-me, por nunca ter te feito saber tudo que me detesta só por amar.

(Isadora Bersot)

Compasso descompassado

Agitada pus-me a ouvir o doce barulho do silêncio e fui absorvida por ele. Absorta em meu universo particular, o telefone tocou. Dessa vez, dessa única vez, resolvi não atender e preferi não ouvir a voz do outro lado. Não sei quem era, não sei se era urgente, mas eu precisava de calma. Eu precisava pensar, parar de falar um pouco e me botar a disposição pra ouvir o que o meu próprio eu queria dizer.

Ele só me pedia descanso. Tolo. Eu não podia dar a ele uma coisa que não dependia de mim. Eu não podia sequer me dar ao luxo de dizê-lo: claro, descanse em paz.

Os meus neurônios não param por um minuto sequer, inutilmente, como se o trabalho deles fosse anular em mim os efeitos dos últimos acontecimentos.

Meu coração tem batido mais rápido, num compasso meio descompassado, perdendo um pouco o ritmo. O tom. O som. Também, coitado, agir normalmente diante da vida é pedir, penso eu, um pouco demais.

Meus olhos tornaram-se cachoeiras – não tão lindas como aquelas que você viaja pra apreciar, mas sinceras e sobretudo justas: as vê quem está perto e sem cobrar taxas adicionais. Quem paga mesmo sou eu, e te digo que o preço não é justo.

Desconfio que preciso mesmo de um tempo sozinha, só pra mim – só até que meus olhos sequem, meus neurônios deixem de ficar tão exaustos e que você traga a parte do meu coração que roubou. Até que você volte.

(Isadora Bersot)

Quem inventou esses clichês?

Quer saber? Nunca concordei com o clichê de que “Quem ama não vai embora”. Além da amizade, do amor, ou de qualquer tipo de laço que una duas ou mais pessoas, existe em cada uma delas uma vida própria e intransferível. Existe em cada ser humano sonhos e projetos pessoais (e até divinos) que não serão realizados permanecendo-se no mesmo lugar ou da mesma maneira. Vivo dizendo (e vivendo) que mudanças são necessárias em qualquer instância.

Permanência, de uma maneira geral, atrai comodismo; e se pra sair da zona de conforto for necessário, fisicamente, ir embora, é melhor que se vá. Considero a dor da perda menos pior do que a dor de saber que nunca mudou. Sei que dói partir, porque já parti e já fui partida. Sei que dói abrir mão, porque já abri e, de vez em quando, ainda procuro uma delas pra segurar. Sei que dói renunciar, porque já renunciei e até já fui renunciada, mas descobri que mesmo com todas essas partidas, renúncias, idas e voltas o preço que se paga por permanecer sempre o mesmo é muito maior.

Ps.: Queria eu, ser de verdade, tão fria quanto essas palavras quando trata-se de part(idas).

(Isadora Bersot)

Menina de Retalhos

Seus pais sempre lhe disseram que era linda como uma boneca. Daquelas bem perfeitinhas! Sorriso lindo, olhos claros, cabelos esvoaçantes de dar inveja a qualquer outra menina e pra ninguém botar defeitos.
Apesar de sua beleza, ela sentia-se como uma boneca de retalhos. Sua vida sempre foi meio conturbada. Seu coração era como um daqueles sótãos bem sujinhos, cheios de tranqueiras acumuladas e sentimentos perdidos. Sua vida era uma eterna costura onde nada nunca estava pronto, onde sempre faltava um ponto. Entretanto, ela era amada.
Tinha amigos presentes e uma família que a apoiava. Infelizmente, seu coração frágil sofreu leves rachaduras com a vida, mas tornaram-se cortes profundos demais para serem esquecidos.
Apesar de possuir tudo que qualquer pessoa queria ter, ela não sentia o amor. Já havia se decepcionado muito, resolveu desacreditar dessa força. Era como se ela fosse imune a qualquer sentimento bom dedicado a ela própria.
Ela se achava inferior, indigna, não merecedora de nada. Mas o tempo, aquele famoso por curar tudo e revelar a verdade das pessoas, passou. E no fim de tudo ela percebeu que seu medo não era de amar, seu medo era ser amada.
(Isadora Bersot)

Chuva, chova

Acho um tanto bonita a sinceridade dos céus: quando estão saturados, cheios, recebem uma característica humana: explodem. Não como uma bomba-atômica. Eles explodem como lágrimas, dando um gelo ou sendo frios como a neve, mas também gritam, trovejam e soltam relâmpagos.

Ta aí uma boa lição pra se aprender com eles: explodir nem sempre é gritar ou arranjar confusão. Chove um pouquinho, dá um gelo, nem tudo se resolve na base da gritaria. Claro que ninguém tá proibido de relampejar de vez em quando, mas seja depois de chover ou de trovejar, faça com os céus: esqueça o que te encheu, nuvem, e abra espaço para um lindo e reluzente Sol!

(Isadora Bersot)

Confissão

Confesso que eu gosto um tanto de fazer os outros rirem. Não me importa se é riso amarelo, roxo, ou vermelho. O que importa é o sorrir.

Não faço isso (ou tento fazer) porque quero ser engraçada, mas é que a gente já tem motivo por demais pra chorar né? Então quem sabe não encontrem em mim uma frestinha de esperança? Quem sabe consigo tirar um pouco da amargura do coração de quem já a fez armadura pra alma.

Que minhas piadas engraçadas, ou até que a falta de graça em mim, seja um motivo pra trazer um sorriso na boca e uma esperança ao coração.

Ps.: Eu também choro.

(Isadora Bersot)