Compasso descompassado

Agitada pus-me a ouvir o doce barulho do silêncio e fui absorvida por ele. Absorta em meu universo particular, o telefone tocou. Dessa vez, dessa única vez, resolvi não atender e preferi não ouvir a voz do outro lado. Não sei quem era, não sei se era urgente, mas eu precisava de calma. Eu precisava pensar, parar de falar um pouco e me botar a disposição pra ouvir o que o meu próprio eu queria dizer.

Ele só me pedia descanso. Tolo. Eu não podia dar a ele uma coisa que não dependia de mim. Eu não podia sequer me dar ao luxo de dizê-lo: claro, descanse em paz.

Os meus neurônios não param por um minuto sequer, inutilmente, como se o trabalho deles fosse anular em mim os efeitos dos últimos acontecimentos.

Meu coração tem batido mais rápido, num compasso meio descompassado, perdendo um pouco o ritmo. O tom. O som. Também, coitado, agir normalmente diante da vida é pedir, penso eu, um pouco demais.

Meus olhos tornaram-se cachoeiras – não tão lindas como aquelas que você viaja pra apreciar, mas sinceras e sobretudo justas: as vê quem está perto e sem cobrar taxas adicionais. Quem paga mesmo sou eu, e te digo que o preço não é justo.

Desconfio que preciso mesmo de um tempo sozinha, só pra mim – só até que meus olhos sequem, meus neurônios deixem de ficar tão exaustos e que você traga a parte do meu coração que roubou. Até que você volte.

(Isadora Bersot)

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